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Governança de Dados na prática: como ligar estratégia, métricas e operação

Governança de Dados deixou de ser assunto restrito a TI e compliance. Com a explosão do volume de informações, o endurecimento da LGPD e o avanço acelerado da IA, conselhos e C-levels passaram a questionar de onde vêm os números que orientam decisões bilionárias. Em paralelo, relatórios como o da ANBIMA e previsões da IDC indicam que a produção global de dados deve bater centenas de zettabytes em 2025, pressionando ainda mais a capacidade das empresas de organizar, proteger e monetizar seus ativos informacionais.

Neste contexto, pensar em Governança de Dados é desenhar o painel de controle de dados (cockpit) que guia o negócio. Imagine um time de marketing e dados reunido numa war room, olhando para dashboards em tempo real e conseguindo responder, com segurança, quais métricas são confiáveis, quais riscos estão sob controle e onde há espaço para novos produtos de dados. Este artigo mostra como chegar lá, conectando estratégia, Análise & Métricas, segurança e um roadmap de 90 dias apoiado em tendências recentes de mercado.

Por que Governança de Dados virou tema de CEO em 2025

Nos últimos anos, o debate sobre proteção e uso ético de dados amadureceu rapidamente no Brasil. A atuação mais firme da Autoridade Nacional de Proteção de Dados e decisões judiciais relevantes fizeram com que conselhos passassem a tratar incidentes de vazamento e uso indevido como riscos estratégicos. Em paralelo, o tema aparece de forma recorrente em estudos como o da ANBIMA sobre dados como ativo competitivo e em eventos de tecnologia e serviços financeiros.

Do lado tecnológico, análises da IDC e de institutos como o Gartner Data & Analytics mostram um cenário de crescimento vertiginoso na produção de informações, impulsionado por nuvem, dispositivos conectados e IA generativa. Sem uma Governança de Dados clara, cada nova aplicação, API ou modelo treinado adiciona complexidade, aumenta a superfície de risco e, muitas vezes, degrada a qualidade das métricas que chegam à diretoria.

Na prática, o tema chegou à agenda do CEO por três motivos principais:

  • Pressão regulatória e reputacional: multas, obrigações de reporte, direitos dos titulares e exigência de transparência cada vez maiores, reforçados por estudos de privacidade e por análises recentes da DPONET.
  • Viabilização de IA confiável: sem processos mínimos de qualidade, linhagem e segurança, modelos de machine learning e de IA generativa entregam resultados enviesados, inconsistentes ou simplesmente não auditáveis.
  • Competitividade baseada em dados: instituições financeiras, govtechs e empresas de tecnologia que tratam dados como produto conseguem lançar serviços mais rápido, monetizar ativos informacionais e personalizar jornadas com muito mais precisão.

Por isso, Governança de Dados não é mais projeto de TI. É uma arquitetura de decisões, responsabilidades e controles que sustenta o modelo de negócios em um ambiente regulatório e tecnológico cada vez mais desafiador.

Fundamentos de Governança de Dados que realmente funcionam

Antes de sair escolhendo ferramentas, é fundamental desenhar os elementos estruturais da Governança de Dados. Os pilares mais citados por referências como o Gartner Data & Analytics, os relatórios IDC FutureScape e as recomendações de especialistas da FEBRABAN Tech convergem em quatro dimensões: papéis, políticas, processos e plataforma.

Nos papéis, três figuras são críticas. O data owner, geralmente um líder de negócio, responde pelo valor e pelo risco de um domínio de dados, como clientes, produtos ou campanhas. O data steward é o responsável operacional pela qualidade, documentação e cumprimento das regras daquele domínio. Já o data product owner cuida de um produto de dados específico, como um painel de churn ou um score de risco, tratando-o como um ativo com ciclo de vida, backlog e SLAs claros.

Políticas definem os princípios e as regras de uso: quem pode acessar o que, para qual finalidade, por quanto tempo e em qual base legal. Processos operacionalizam essas decisões, como fluxos de solicitação de acesso, revisão de qualidade, classificação de dados sensíveis e gestão de incidentes. Organizações mais maduras implementam comitês de dados e fóruns mensais para tratar conflitos entre áreas, priorizar demandas e acompanhar indicadores de governança.

Por fim, a plataforma integra catálogos, trilhas de auditoria, ferramentas de qualidade e observabilidade de dados, além de integrações com soluções de segurança e privacidade. Em um cenário de múltiplos hubs de dados, recomendado por análises como a síntese da AMcom sobre tendências de Data Analytics, essa camada garante que cada domínio tenha autonomia controlada, mas siga padrões comuns de documentação, acesso e monitoramento.

Conectando Governança de Dados, Análise & Métricas e decisões

Muitas empresas tratam Governança de Dados como um esforço paralelo à área de BI, quando, na verdade, o objetivo central é tornar confiáveis as entregas de Análise & Métricas. Se o mesmo indicador apresenta valores diferentes em relatórios distintos, o problema raramente está só no dashboard. Em geral, falta clareza sobre as definições, a linhagem e os responsáveis por cada conjunto de dados.

É aqui que o trio 'Métricas,Dados,Insights' precisa ser pensado como uma cadeia única. A pergunta de negócio define a métrica, que aponta para determinados conjuntos de dados, que por sua vez alimentam modelos, relatórios e decisões. Sem Governança de Dados, qualquer alteração em uma etapa intermediária quebra a confiança em toda a cadeia, mesmo que o visual do dashboard continue impecável.

Um fluxo mínimo para conectar Governança de Dados a Analytics pode seguir cinco passos:

  1. Formular claramente a pergunta de negócio e identificar o decisor que dependerá daquela resposta.
  2. Definir a métrica, com fórmula, granularidade, janela temporal e regras de exclusão de outliers.
  3. Mapear as fontes de dados que alimentam essa métrica, com responsáveis, contratos e restrições regulatórias.
  4. Desenhar o pipeline técnico que transforma os dados brutos em informações prontas para análise.
  5. Publicar a métrica em um repositório governado e disponibilizá-la em um stack mínimo de 'Dashboard,Relatórios,KPIs'.

Voltando ao nosso time de marketing na war room, imagine que a diretoria pede o CAC por canal em tempo quase real. Em uma organização com Governança de Dados estabelecida, existe um data product owner responsável por esse indicador, um dicionário de métricas acessível, validações automáticas para garantir consistência e um fluxo claro de aprovação para qualquer mudança na definição. O resultado é que Análise & Métricas deixam de ser um gargalo e passam a ser um ativo estratégico confiável.

Resiliência, segurança e conformidade dentro da Governança de Dados

Outra mudança relevante nas discussões recentes é a integração entre Governança de Dados, segurança da informação e resiliência operacional. Análises da DataCenterDynamics sobre resiliência de dados e IA, bem como casos práticos de fornecedores como a Veeam, mostram que backups imutáveis, planos de recuperação e testes frequentes de restauração deixaram de ser apenas temas de infraestrutura. Eles são parte essencial da prova de controle em auditorias e avaliações de conformidade.

Do ponto de vista regulatório, conteúdos como os artigos da DPONET sobre avanços em proteção de dados reforçam três exigências: demonstrar que apenas pessoas autorizadas acessam dados pessoais, garantir que esses dados possam ser corrigidos ou apagados quando necessário e comprovar que existem mecanismos razoáveis para prevenir e responder a incidentes. Sem Governança de Dados, é praticamente impossível responder a essas demandas com evidências consistentes.

Na prática, um programa moderno de Governança de Dados precisa incorporar ao menos cinco controles operacionais relacionados à resiliência e segurança:

  1. Classificação de dados por sensibilidade e criticidade para o negócio.
  2. Políticas claras de retenção e descarte, alinhadas a LGPD, requisitos regulatórios setoriais e boas práticas sugeridas por entidades como a FEBRABAN Tech.
  3. Estratégia de backup com cópias imutáveis para dados críticos e testes periódicos de restauração.
  4. Monitoramento de acessos privilegiados, com trilhas de auditoria e revisão periódica.
  5. Procedimentos estruturados de resposta a incidentes, incluindo comunicação a titulares, reguladores e parceiros.

Empresas com atuação internacional ainda precisam considerar normas como a NIS2 europeia, que eleva o padrão esperado de resiliência de dados e continuidade de negócios. Nesse cenário, cláusulas contratuais com provedores de nuvem e SaaS passam a exigir não apenas SLAs de disponibilidade, mas também evidências de conformidade com políticas internas de Governança de Dados.

Roadmap de 90 dias para tirar Governança de Dados do papel

Nenhuma organização constrói maturidade de Governança de Dados de uma vez. Relatórios como os do Gartner Data & Analytics Conference e artigos de consultorias brasileiras, como o material da Euax sobre tendências de TI, indicam que programas bem-sucedidos começam pequeno, com pilotagens bem delimitadas, mas já conectadas a objetivos estratégicos claros. Um bom ponto de partida é um roadmap de 90 dias focado em um ou dois domínios de alto impacto.

Nos primeiros 30 dias, o foco está em entendimento e alinhamento:

  • Mapear domínios de dados críticos, como clientes, faturamento, canais digitais ou frota, e escolher um para o piloto.
  • Identificar data owners, stewards e principais consumidores de informação naquele domínio.
  • Levantar rapidamente os principais problemas percebidos: indicadores conflitantes, base de contatos desatualizada, riscos regulatórios, dependência de planilhas.
  • Definir objetivos de curto prazo mensuráveis, como reduzir divergências entre relatórios em determinada porcentagem ou atender a prazos de resposta a titulares previstos em lei.

Entre os dias 31 e 60, é hora de estruturar políticas e processos mínimos:

  • Documentar definições das principais métricas e publicar em um catálogo acessível.
  • Desenhar o fluxo de solicitação e concessão de acesso aos dados do domínio.
  • Implementar controles simples de qualidade, como checks de completude, unicidade de chaves e consistência de datas.
  • Selecionar ou configurar ferramentas básicas de catálogo e documentação de dados, mesmo que inicialmente em soluções mais enxutas.

Do dia 61 ao 90, o foco se desloca para implantação e escala:

  • Consolidar um ou dois produtos de dados do piloto, como um painel executivo ou um dataset certificado para uso por data scientists.
  • Definir KPIs de Governança de Dados, como percentual de atributos documentados, número de incidentes de qualidade por mês ou tempo médio para atender solicitações de acesso.
  • Incorporar o tema em rituais de gestão já existentes, como reuniões de diretoria e comitês de risco.
  • Registrar lições aprendidas e desenhar o plano de expansão do modelo para outros domínios, sempre com patrocínio executivo ativo.

Checklist prático de Governança de Dados para líderes

Para apoiar decisões e priorizações, vale transformar os principais pontos de atenção da Governança de Dados em um checklist objetivo. Use as perguntas abaixo em reuniões de planejamento, avaliações de fornecedores ou processos de due diligence.

  • Quem é o dono de cada domínio de dados crítico e quem responde por cada produto de dados relevante para o negócio.
  • Quais são as métricas prioritárias da organização e onde estão formalmente documentadas suas definições, fórmulas e premissas.
  • Como a empresa mede o sucesso da Governança de Dados: existem KPIs como cobertura de catálogo, qualidade por domínio ou tempo de resposta a titulares.
  • Que controles de resiliência existem para os dados mais críticos: políticas de backup imutável, testes de recuperação, objetivos de RTO e RPO claros.
  • Quais são as regras e os controles para uso de dados em iniciativas de IA, incluindo gestão de vieses, uso de dados sintéticos e validação de modelos.
  • Como são avaliados e monitorados riscos na cadeia de fornecedores, especialmente para serviços em nuvem, martechs e plataformas de automação.
  • Qual é o plano para evoluir em direção a um modelo de dados como produto, com hubs de dados e governança conectada entre áreas de negócio.
  • Com que frequência a alta liderança revisa relatórios sobre riscos, oportunidades e resultados relacionados à Governança de Dados.

Se essas perguntas ainda não têm respostas claras na sua organização, a boa notícia é que você já tem um roteiro imediato de ação. Comece priorizando os domínios de maior risco ou impacto financeiro, envolva marketing, finanças, jurídico e tecnologia em um comitê de dados e trate a Governança de Dados como um programa de transformação contínua, não apenas como um projeto pontual.

Governança de Dados é, em essência, a arte de tomar decisões confiáveis a partir de informações que você pode explicar, auditar e proteger. Em um cenário em que relatórios setoriais, como os da ANBIMA, da FEBRABAN Tech e de eventos como o GovTech Summit 2025, indicam aumento na complexidade regulatória e na pressão competitiva, adiar esse movimento significa abrir espaço para riscos desnecessários e perder oportunidades claras de monetização e eficiência.

Por outro lado, organizações que estruturam um cockpit de dados bem desenhado, com papéis definidos, processos consistentes, plataformas adequadas e uma conexão direta com Análise & Métricas, conseguem transformar rapidamente dados dispersos em decisões melhores. Use o roadmap de 90 dias e o checklist proposto como ponto de partida, escolha um domínio piloto e comece a construir hoje o nível de maturidade em Governança de Dados que o seu negócio vai precisar para competir nos próximos anos.

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Dionatha Rodrigues

Dionatha é bacharel em Sistemas de Informação e especialista em Martech, com mais de 17 anos de experiência na integração de Marketing e Tecnologia para impulsionar negócios, equipes e profissionais a compreenderem e otimizarem as operações de marketing digital e tecnologia. Sua expertise técnica abrange áreas-chave como SEO técnico, Analytics, CRM, Chatbots, CRO (Conversion Rate Optimization) e automação de processos.

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