Na prática, atribuição raramente falha por falta de dados. Ela falha por falta de um modelo que respeite o tempo. Quando você olha para uma jornada real, percebe que um toque de ontem costuma “puxar” mais a conversão do que um toque de três semanas atrás. É exatamente isso que Time Decay Attribution tenta capturar.
Pense em uma ampulheta com uma curva exponencial desenhada no vidro. A areia que cai mais perto do fim representa interações mais recentes ganhando mais crédito. Agora leve essa metáfora para o seu dia a dia: em uma reunião de performance, o time abre um dashboard e ajusta uma alavanca de half-life para ver como o ROI muda por canal, campanha e segmento. Este artigo te mostra como sair da teoria e usar Time Decay Attribution para decisões de orçamento, posicionamento e otimização, sem “cegar” o topo do funil.
O que é Time Decay Attribution e quando ele vence o last-click
Time Decay Attribution é um modelo multi-touch que distribui crédito entre os pontos de contato, aumentando o peso conforme a interação fica mais próxima da conversão. Em vez de premiar só o último clique, ele assume uma realidade comum: a influência “esfria” com o tempo.
Use Time Decay Attribution quando existe:
- Ciclo de decisão médio ou longo (B2B, serviços, tickets altos, assinaturas).
- Múltiplos canais atuando em sequência (conteúdo, remarketing, e-mail, search de marca).
- Nurturing e retomadas (a pessoa some e volta dias depois).
Um bom teste mental: se você acredita que o último toque é “só a porta”, e não a história inteira, last-click vai distorcer a alocação de budget.
Regra de decisão operacional (rápida):
- Se a mediana de tempo até conversão for maior que 7 dias, rode Time Decay Attribution em paralelo ao last-click por pelo menos 2 ciclos.
- Se a mediana for menor que 3 dias, o ganho pode ser pequeno e o risco de supervalorizar retargeting aumenta.
Mudança típica de leitura (antes/depois):
- Antes (last-click): “Search e remarketing são heróis; topo de funil é caro.”
- Depois (time decay): “Topo de funil aparece com crédito menor, mas consistente; middle e bottom ganham peso proporcional ao timing.”
Para aprofundar conceito, prós e contras, vale comparar a visão de ferramentas e consultorias que detalham o modelo, como Triple Whale e RedTrack.
Time Decay Attribution na prática: half-life, curva e janela de conversão
O coração do Time Decay Attribution é escolher uma curva de decaimento que combine com o seu ciclo. Em termos simples, você define um half-life: depois desse tempo, um toque vale metade do crédito de um toque “agora”.
Uma forma comum de modelar é usar decaimento exponencial, em que o peso diminui continuamente. Algumas plataformas explicam isso com fórmulas e exemplos de parametrização, como a Attribution App.
Workflow de configuração (em 30 a 60 minutos):
- Meça o tempo até conversão por segmento (novo vs. recorrente, B2B vs. B2C, lead vs. compra).
- Defina a janela de atribuição (ex.: 30, 60 ou 90 dias). Evite janelas maiores que seu ciclo, para não inflar ruído.
- Escolha o half-life inicial:
- Ciclo de 14 dias: half-life entre 3 e 5 dias.
- Ciclo de 45 dias: half-life entre 10 e 15 dias.
- Ciclo de 90 dias: half-life entre 20 e 30 dias.
- Rode o modelo em paralelo por 2 a 4 semanas e compare com linear e last-click.
Regra de decisão (half-life):
- Se seu time reclama que “tudo vira retargeting”, aumente o half-life.
- Se seu time reclama que “o modelo está parecido com linear”, reduza o half-life.
Métrica para validar a escolha:
- A distribuição de crédito por canal deve ficar estável em nível de categoria (top, middle, bottom) e variar em nível de campanha. Se tudo muda drasticamente, o modelo está sensível demais à janela ou à qualidade do tracking.
Como referência de abordagem e leitura de resultados, confira também a discussão de implementação e ganhos em ciclos longos publicada pela Statsig.
Time Decay Attribution para Posicionamento e Estratégia (sem cortar awareness)
Aqui é onde muita operação erra: adota Time Decay Attribution, vê o bottom “subir”, e corta investimento de topo por parecer pouco eficiente. Só que o modelo foi feito para dizer “o que empurrou agora”, não necessariamente “o que criou demanda”.
Para transformar Time Decay Attribution em ferramenta de Posicionamento e Estratégia, trate o modelo como um mapa de aceleração, não como veredito final.
Decisão estruturada para budget (recomendada):
- Camada 1: Criação de demanda (topo)
- KPI: alcance qualificado, visitas novas, lift de marca, taxa de engajamento.
- Atribuição: use time decay como sinal indireto (aparece com crédito menor, mas recorrente).
- Camada 2: Educação e consideração (meio)
- KPI: leads qualificados, consumo de conteúdos-chave, retorno ao site.
- Atribuição: time decay costuma “revelar” ativos intermediários (webinars, comparativos, e-mail).
- Camada 3: Fechamento (fundo)
- KPI: conversão, CPA, ROAS, receita incremental.
- Atribuição: é onde o time decay tende a ser mais acionável.
Framework prático: híbrido com posição
Uma saída robusta é combinar time decay com lógica de posição (primeiro e último toque com pesos mínimos), para não esmagar o topo. Essa ideia aparece com frequência em abordagens de mercado focadas em equilíbrio entre curto e longo prazo, como discutido pela TrueProfit.
Checklist de governança (para evitar “matar” o topo):
- Defina um piso de investimento em criação de demanda por 1 a 2 trimestres.
- Compare ROI por canal em coortes de aquisição (ex.: clientes adquiridos em outubro vs. novembro).
- Faça segmentação por intenção: marca vs. genérico, prospecting vs. retargeting.
Se você aplicar esse método, Time Decay Attribution vira uma ferramenta de estratégia de jornada, e não apenas um relatório de performance.
Implementação no stack: GA4, mídia paga, CRM e naming para segmentação
O modelo só é útil se a coleta for confiável. E confiável, aqui, significa: eventos consistentes, UTMs padronizadas e identificação de usuários dentro do possível.
Workflow mínimo (stack enxuto e funcional):
- Padronize UTMs e naming (source, medium, campaign, content) e congele uma convenção.
- Garanta eventos de conversão bem definidos no site e app.
- Conecte mídia paga e analytics.
- Integre CRM para fechar o ciclo (lead, oportunidade, receita).
Ferramentas comuns nessa arquitetura:
- Eventos e jornadas em Google Analytics 4 e importação de conversões.
- Conversões e ajuste de janelas no Google Ads.
- Padronização e governança de campanhas em Meta Business Help Center.
- Conexão de pipeline e receita com CRM como Salesforce ou HubSpot.
Regra de decisão (o que integrar primeiro):
- Se você é B2C e compra no site, comece por GA4 + Ads + pixels + CAPI.
- Se você é B2B e a venda fecha no CRM, comece por GA4 + CRM + fonte de lead, e só depois refine mídia.
Segmentação obrigatória para não se enganar:
- Novo vs. recorrente.
- Ticket baixo vs. alto.
- Ciclo curto vs. longo.
- Dispositivo (mobile vs. desktop) quando relevante.
Sem essa segmentação, Time Decay Attribution vira média geral. E média geral quase sempre esconde o canal que cria demanda e o canal que fecha.
Otimizando Campanha e Performance com Time Decay Attribution (o que mudar na segunda-feira)
Depois de implementar, a pergunta é: como transformar o modelo em ações? O objetivo não é “achar o canal campeão”. É realocar orçamento para reduzir CPA e aumentar ROI sem colapsar o funil.
Playbook de otimização (semanal):
- Separe relatórios por prospecting e retargeting.
- Compare 3 visões lado a lado: last-click, linear e Time Decay Attribution.
- Identifique campanhas que ganham crédito no time decay e perdem no last-click. Geralmente são campanhas de consideração.
- Faça realocação incremental:
- Mova 5% a 10% do budget por semana, não 30% de uma vez.
- Reavalie após 7 a 14 dias.
Decisão objetiva para cortar ou escalar:
- Escale se o canal/campanha melhora CPA e mantém taxa de conversão estável.
- Corte se o canal só “sobe” por estar mais perto do fim, mas piora eficiência marginal.
Em benchmarks de plataformas de tracking e atribuição, é comum ver mudança relevante de crédito para interações de fundo de funil quando se sai de linear para time decay, e isso costuma alterar decisões de budget em retargeting, search e e-mail. Uma leitura com exemplos e implicações de otimização pode ser vista em conteúdos como os da RedTrack e da OWOX.
Exemplo prático de ação (e-commerce):
- Antes: todo ROAS “mora” em branded search.
- Depois: time decay mostra que e-mail e remarketing empurram a última semana.
- Ação: criar um grupo de campanha de remarketing baseado em categorias vistas e aumentar a cadência de e-mail para carrinho abandonado.
Exemplo prático de ação (B2B):
- Antes: LinkedIn parece caro porque raramente é last-click.
- Depois: time decay mostra LinkedIn como acelerador de reuniões quando acontece a 3 a 10 dias do lead.
- Ação: ajustar mensagens e ofertas intermediárias (case, demo, webinar) e medir avanço de estágio no CRM.
Limitações, privacidade e como evitar decisões erradas em 2026
Time Decay Attribution não é “a verdade”, é um modelo. Ele funciona melhor quando você aceita suas limitações e cria controles.
Limitações comuns:
- Supervalorização de retargeting em janelas curtas.
- Dificuldade em medir impacto real de brand e offline.
- Perda de sinal por restrições de cookies, consentimento e cross-device.
Controles operacionais (o que implementar):
- Testes de incrementalidade (holdout, geo, lift) para validar canais de topo.
- Piso de investimento por objetivo (awareness, consideração, conversão).
- Auditoria mensal de tracking (UTMs, eventos, deduplicação, importação de conversões).
Regra de decisão (quando não usar sozinho):
- Se seu mix tem muita mídia de alcance, complemente com estudos de lift.
- Se seu tracking é frágil, priorize arrumar coleta antes de discutir modelo.
O mercado tem caminhado para abordagens mais “privacy-first”, com mais dependência de dados próprios e integrações server-side. Leituras sobre tendências e evolução de atribuição em 2025 ajudam a contextualizar essa direção e a evitar expectativas irreais, como o panorama publicado pela Giant Partners e a visão mais ampla sobre complexidade de modelos discutida pela Market My Market.
Volte à imagem do começo: a ampulheta com a curva exponencial. Se você mexe no half-life sem governança, você só muda a forma do vidro. Se você combina modelo, segmentação e validação, você transforma atribuição em decisão.
Conclusão
Time Decay Attribution é uma forma pragmática de aproximar atribuição do comportamento real: o que aconteceu mais perto da conversão tende a pesar mais. Ele é especialmente valioso em ciclos longos, jornadas multicanal e operações com nurturing, onde last-click distorce o ROI.
Para aplicar com segurança, foque em três ações: escolher um half-life coerente com o ciclo, implementar segmentação (novo vs. recorrente, ciclo curto vs. longo) e usar o modelo como motor de otimização incremental, não como sentença para cortar topo de funil. Quando você faz isso, o modelo deixa de ser um gráfico no dashboard e vira um método para decidir orçamento, mensagens e cadência de campanhas com confiança.