Pense no refeitório de uma fábrica. O funcionário almoça lá porque é o que existe no horário e no caminho. Ele nunca comparou o cardápio com o do restaurante da esquina. Se a comida piora, ninguém faz reclamação formal: a fila diminui um pouco e as marmitas começam a aparecer na geladeira.
O CRM, as automações, os painéis e os formulários que o marketing opera funcionam como esse refeitório. Cada um deles é um produto interno: tem usuários, que são vendas, atendimento e o próprio marketing, e esses usuários não podem trocar de fornecedor. O sintoma aparece quando o pipeline oficial está no CRM e a previsão em que o diretor comercial confia está numa planilha do gerente.
A hipótese do Club Martech, sem pesquisa por trás, é que o problema está no jeito de tratar esses sistemas: como projeto que termina na implantação, com alguém que administra a ferramenta e ninguém que responda se ela resolve o trabalho de quem usa. A seguir, você vê por que a régua desses sistemas é mais baixa, o que muda quando qualquer pessoa monta a própria ferramenta com IA e o que medir.
O que é um Produto Interno e quem são os usuários dele
Marty Cagan, fundador do Silicon Valley Product Group (SVPG), separa três tipos de produto interno no artigo Commercial vs Internal Products, de abril de 2026: serviços que os funcionários usam para atender o cliente, ferramentas que ajudam cada pessoa a fazer o próprio trabalho e serviços de bastidor que sustentam boa parte do negócio, como plataformas internas. A tese da SVPG é que se ganha mais tratando esses sistemas como produtos de verdade do que como esforço de segunda classe.
Levado para a operação de marketing, o mapa fica assim:
- CRM: vendas trabalha as oportunidades, e o atendimento consulta o histórico.
- Automações de nutrição e de distribuição de leads: o usuário principal é o próprio marketing, e o SDR recebe o resultado.
- Painéis de resultado: a liderança usa para decidir verba, meta e prioridade.
- Formulários: o lead preenche, e o time recebe o dado do outro lado.
Cagan escreve para empresas de produto digital e avisa, numa nota de rodapé, que a categoria dele normalmente não inclui a TI tradicional. Um CRM comprado de um fornecedor e configurado pelo time de marketing fica num meio do caminho que o texto não discute. A aplicação à operação de marketing é leitura do Club Martech, apoiada na lógica dele, sem pesquisa com times de marketing por trás.
Faça essa lista para a sua operação e pergunte a quem administra cada sistema: “Quem usa isto todo dia, e quando foi a última vez que alguém perguntou se resolve o trabalho dessa pessoa?”
Os quatro Riscos de Produto que o CRM também corre
Cagan lembra que o produto interno enfrenta os mesmos quatro riscos de qualquer produto: valor, usabilidade, viabilidade técnica e viabilidade de negócio. No CRM e nas automações, cada risco tem uma cara reconhecível.
- Valor: o sistema resolve um problema que o usuário tem? Imagine um campo obrigatório de motivo de perda que o vendedor preenche com a primeira opção da lista só para fechar o registro.
- Usabilidade: o usuário consegue fazer a tarefa sem pedir ajuda? Uma régua de nutrição que só uma pessoa da empresa sabe editar falha aqui, mesmo funcionando.
- Viabilidade técnica: a integração aguenta o volume e os casos de borda? Pense no formulário que duplica o lead quando o mesmo e-mail chega por dois canais.
- Viabilidade de negócio: a solução respeita orçamento, contrato, LGPD e as regras comerciais? Mandar mensagem para quem não deu consentimento cumpre a tarefa e cria um problema jurídico.
O risco é cuidar só do terceiro. Se a implantação é dada como encerrada quando a integração funciona, ninguém volta para conferir valor e usabilidade com quem usa. Antes de aprovar a próxima automação, pergunte a quem pediu: “Isto resolve a tarefa de quem, e como a gente vai saber que resolveu?”
Por que a régua do Produto Interno é mais baixa
Os riscos são os mesmos, mas Cagan reconhece que a régua costuma ser mais baixa, e explica por quê. O valor é mais fácil de provar, porque o usuário não tem a opção de usar o produto de um concorrente. A usabilidade pode ser compensada com treinamento e documentação. A exigência técnica é menor, porque escala e desempenho raramente se comparam aos de um produto externo. E a viabilidade fica mais simples, porque o sistema opera numa parte estreita do negócio, protegida do mundo lá fora. Num produto interno, escreve ele, a empresa literalmente paga as pessoas para usá-lo.
O artigo de Cagan aponta para o lado oposto deste texto: o objetivo dele é mostrar que o produto vendido ao mercado é bem mais difícil, e a régua do produto interno entra como contraste. O texto não traz dado medido para essas razões, e a SVPG vende workshops sobre o modelo de produto que ele defende. Serve como hipótese, e não como prova.
Para quem opera marketing, essa régua explica por que um sistema ruim pode sobreviver por muito tempo: o vendedor não pode cancelar o CRM. E a falta de escolha apaga o sinal mais claro de que algo vai mal. No mercado, o cliente insatisfeito vai embora e a receita cai. Dentro da empresa, o usuário insatisfeito continua logado e faz o trabalho de verdade em outro lugar.
O risco é o treinamento virar remendo permanente para uma tela mal desenhada, e a obrigatoriedade ocupar o lugar que deveria ser do valor. Releia a última reclamação sobre o CRM que chegou até você e confira se a resposta foi um treinamento ou uma mudança no sistema.
Produto Interno × produto vendido ao mercado

| Dimensão | Produto interno | Produto vendido ao mercado |
|---|---|---|
| Quem escolhe usar | A empresa decide pelo usuário | O cliente decide e pode trocar |
| O que basta para dar certo | Resolver a tarefa de quem usa | Ser bem melhor que a alternativa atual, ao menos para um segmento |
| Usabilidade fraca | Compensada com treinamento e documentação | O cliente desiste e procura outra opção |
| Exigência de escala | Geralmente modesta | Maior, com volume e desempenho de mercado |
| Exposição | Parte estreita do negócio, protegida | Concorrência, preço, vendas, jurídico e compliance o tempo todo |
| Sinal de que está falhando | Contorno paralelo: planilha, exportação, pedido por fora | Cancelamento e perda de receita |
| Exemplo no marketing | CRM, régua de nutrição, painel de resultado | O curso, o software ou o serviço que a empresa vende |
As cinco primeiras linhas resumem o raciocínio de Cagan, com alguma dedução do Club Martech na coluna da direita. As duas últimas são leitura do Club Martech, sem dado por trás.
Como ninguém cancela um produto interno, a evidência de que ele vai mal aparece no trabalho que migra para fora dele. Mostre a tabela à liderança comercial na próxima conversa sobre o CRM e peça a cada pessoa que liste, na linha do sinal de falha, os contornos que conhece.
Quando o usuário monta a própria ferramenta com IA
Numa nota de rodapé do mesmo artigo, Cagan acrescenta que os usuários internos estão cada vez mais livres para criar as próprias ferramentas com vibe coding, e chama isso de uma forma de concorrência. Ele mesmo pondera que soluções caseiras disputando espaço com ferramentas low-code e no-code existem há anos, e vê um lado bom: mais gente liberada para cuidar dos produtos que a empresa vende.
O tema ocupa duas frases de rodapé, sem dado sobre quantas pessoas já fazem isso nem sobre o que acontece com essas ferramentas depois. A leitura de que o app paralelo funciona como sinal de produto é do Club Martech.
Na operação de marketing, a marmita agora fica pronta numa tarde. Imagine um SDR que usa vibe coding para descrever a um assistente de IA o painel que gostaria de ter e termina a tarde com um app que puxa os leads por exportação, ordena do jeito dele e manda lembrete. O produto interno ganha um concorrente com cara de produto, feito pelo próprio usuário.
O app paralelo é informação: mostra o que o sistema oficial deixou de resolver para aquela pessoa. Também é risco, porque o dado do cliente sai do CRM para um lugar sem dono e sem registro de consentimento, o mesmo problema do shadow IT.
Antes de desligar a ferramenta paralela, sente com quem a construiu e pergunte: “O que isto faz que o sistema oficial não faz, e para onde vai o dado depois que sai do CRM?”
O que medir num Produto Interno: adoção, tarefa resolvida e contorno
Se o usuário não pode ir embora, a receita não serve de termômetro. Três sinais ajudam a saber se o produto interno cumpre o papel dele:
- Adoção: das pessoas que deveriam usar o sistema para uma tarefa, quantas usam de fato? No CRM, acesso diz pouco: olhe se o vendedor atualizou as próprias oportunidades na semana e se a previsão comercial sai dali.
- Tarefa resolvida: Cagan diz que, no produto interno, o que importa é resolver o problema do usuário. Traduza isso numa tarefa concreta: o SDR sabe quais leads chamar hoje sem sair do sistema? Pedidos de ajuda e retrabalho são boas pistas.
- Contorno paralelo, a marmita na geladeira: quantas planilhas, exportações, apps e pedidos por mensagem existem para um dado que deveria estar no sistema? Quando esse número sobe, o produto interno está perdendo para o concorrente que o usuário montou.
Este artigo não traz benchmark para essas três medidas, e importar um de outro contexto engana. Compare o sistema com ele mesmo, mês a mês, começando pelo CRM, onde cada oportunidade tem dono e data de atualização.
Contar contorno exige entender o fluxo inteiro, do formulário ao fechamento, porque o desvio pode estar na passagem de uma área para outra. Para começar, escolha uma medida por sistema e pergunte a quem administra: “Que número mostraria que este sistema ficou pior para quem usa?”

Quem responde pelo Produto Interno
Sobre quem gerencia um produto interno, Cagan diz que a pessoa precisa entender o domínio e as restrições do negócio, e que chamá-la de “CEO do produto” soa desafinado e arrogante para quem está em volta. No marketing, quem responde pelo CRM não manda em vendas, mas precisa entender o trabalho de vendas.
Administrar e responder são papéis diferentes. Quem administra cria campo e conserta integração. Quem responde prioriza a fila, conversa com os usuários, acompanha as medidas e recusa o pedido que ajuda uma pessoa e piora o trabalho de outras. Esse papel combina com quem faz marketing ops, a área que junta pessoas, processos e tecnologia. Quando o sistema atravessa marketing, vendas e sucesso do cliente, a conversa pode subir para RevOps. Quem responde por qual sistema fica mais claro depois de mapear o processo em BPMN e ver em que passo cada área depende dele.
Tratar sistema interno como produto tem custo. Conversar com usuários e contar contornos é tempo que alguém tira de outra frente. Nem todo formulário merece esse cuidado: o de um evento que dura duas semanas pode continuar sendo projeto. O critério que a gente sugere é o uso. Sistema que alguém usa toda semana para fazer o trabalho principal merece um dono com nome.
Leve a pergunta ao gestor da área: “Quando o CRM não resolve uma tarefa de vendas, quem decide o que muda, e em quanto tempo?”
Próximos passos para tratar o CRM como Produto Interno
Dá para começar sem trocar de ferramenta:
- Escolha um sistema. Comece pelo que mais gente de fora do marketing usa. Na dúvida, o CRM é um bom candidato.
- Liste os usuários e a tarefa de cada um. Uma linha por perfil: quem usa, para quê, com que frequência.
- Observe a tarefa. Peça a duas pessoas que usam o sistema para mostrar, na tela, como fazem a tarefa principal. Anote cada vez que alguém abre outra janela para terminar.
- Conte os contornos. Planilhas, exportações, apps feitos com IA e pedidos por mensagem. Pergunte o que cada um resolve.
- Dê nome ao dono e escolha uma medida. Uma pessoa responde pelo sistema, e uma medida (adoção, tarefa resolvida ou contorno) é revista todo mês.
Marque esta semana a primeira sessão de observação com alguém de vendas e leve a lista de usuários impressa para preencher junto.