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Gestão de Riscos orientada por dados: do projeto à estratégia

A gestão de riscos deixou de ser um exercício burocrático de preencher matrizes para atender auditorias. Em 2024 e 2025, com pressão regulatória, aumento de ciberataques e cadeias de suprimentos mais complexas, decisões ruins sobre risco podem matar projetos estratégicos e destruir valor em semanas.

Ao mesmo tempo, dados e tecnologia nunca foram tão abundantes. Pesquisas recentes, como o relatório de gerenciamento de riscos da KPMG Brasil e a pesquisa Future of Controls da Deloitte, mostram que a maioria das organizações já criou estruturas formais, mas ainda luta para transformar informação em decisões ágeis.

Neste contexto, o diferencial passa a ser construir um painel de controle de riscos em tempo real que conecte projetos, terceiros, compliance e operação. Este artigo mostra como usar métricas, dados e insights para estruturar uma gestão de riscos realmente integrada à estratégia, com foco em eficiência, otimização de processos e melhorias contínuas.

O novo contexto da gestão de riscos nas empresas brasileiras

Relatórios recentes indicam que a maior parte das empresas brasileiras já possui uma área formal de gestão de riscos, mas ainda existe um descompasso entre estrutura e efetividade. O relatório de gerenciamento de riscos da KPMG Brasil mostra um avanço relevante na criação de funções dedicadas e na figura do CRO, porém evidencia lacunas na integração com a tomada de decisão.

A mesma tendência aparece na pesquisa Future of Controls da Deloitte: há consciência da importância do tema, mas falta automação de controles, documentação robusta e uma cultura de risco disseminada. Em paralelo, o endurecimento de regulações como LGPD e normas internacionais eleva o custo de falhas de compliance.

O quadro fica ainda mais complexo quando analisamos riscos de terceiros, cibersegurança e continuidade de negócios. O relatório de benchmark de terceiros da Hyperproof mostra que, embora 85% das organizações já utilizem alguma plataforma para risco e compliance, uma parcela expressiva ainda depende de planilhas para gerenciar riscos de fornecedores críticos.

Enquanto isso, estudos como o da Federation of European Risk Management Associations (FERMA) colocam geopolítica, cadeia de suprimentos e ciberameaças no topo das preocupações globais. Ainda assim, consultorias como a Grant Thornton Brasil apontam que parte do médio empresariado nacional relaxou a atenção em segurança cibernética, criando um perigoso gap entre risco real e percepção.

O recado é claro: gestão de riscos não pode ser um anexo do compliance. Ela precisa conectar estratégia, operação e gestão de projetos por meio de dados confiáveis, KRIs e KPIs estratégicos e rituais de decisão bem definidos.

Pilares de uma gestão de riscos orientada por dados

Gestão de riscos orientada por dados não é sobre ter um volume gigantesco de informações. É sobre transformar dados em decisões diárias melhores. Quatro pilares sustentam esse modelo.

1. Governança clara e responsável

O primeiro pilar é definir quem decide o quê. Conselho, diretoria, CRO, CISO, área de compliance, gestores de projeto e donos de processo precisam de papéis explícitos. Sem essa clareza, o risco fica “no limbo” e decisões críticas são empurradas para a próxima reunião.

Uma governança eficaz inclui um comitê de riscos com mandato formal, agenda periódica e critérios objetivos para priorização. Cargos técnicos, como CRO e CISO, ganham assento na discussão estratégica, não apenas na etapa de reporte.

2. Estrutura de dados, métricas e KRIs

O segundo pilar é transformar riscos em números. Isso exige um dicionário de indicadores que conecte riscos-chave a métricas concretas de negócio. Alguns exemplos:

  • Risco de crédito: índice de inadimplência por segmento, perda esperada, concentração de carteira.
  • Risco operacional: número de incidentes de alta severidade, tempo médio de resolução, reincidência.
  • Risco de terceiros: percentual de fornecedores críticos com avaliações em dia, dependência de fornecedor único.
  • Risco de projeto: variação de prazo e orçamento associada a riscos materializados.

Esses indicadores funcionam como KRIs (Key Risk Indicators) integrados a KPIs de performance. O objetivo não é medir tudo, mas sim construir um conjunto pequeno e robusto de métricas, capaz de gerar insights acionáveis para gestão.

3. Processos padronizados de gestão de riscos

Toda organização precisa de um ciclo mínimo padronizado: identificar, analisar, tratar, monitorar e reportar riscos. Modelos reconhecidos, como os descritos nas orientações práticas de gestão de riscos em projetos da ITToolkit, podem ser adaptados para o contexto corporativo.

Um ponto crítico é garantir que esse ciclo esteja conectado à rotina. Riscos são identificados em workshops, auditorias, incidentes e mudanças regulatórias, mas só ganham vida quando entram em um processo recorrente de monitoramento e revisão.

4. Tecnologia e o painel de controle de riscos em tempo real

O quarto pilar é o uso inteligente de tecnologia. Não se trata apenas de comprar uma solução de GRC. É construir um painel de controle de riscos em tempo real que concentre KRIs, incidentes, planos de ação e status de projetos.

Esse painel deve ser alimentado por integrações com sistemas de negócio, ERPs, ferramentas de gestão de projetos e plataformas de cibersegurança. O objetivo é dar à liderança uma visão unificada dos riscos que realmente importam, destacando tendências, desvios relevantes e áreas que exigem intervenção imediata.

Como integrar gestão de riscos à gestão de projetos

Projetos são, por definição, geradores de risco. Novas tecnologias, mudanças de processo, integrações com terceiros e prazos agressivos aumentam a exposição da organização. Por isso, a gestão de projetos é um dos campos mais críticos para aplicar gestão de riscos de forma estruturada.

Boas práticas de gestão de projetos, alinhadas a frameworks como o PMI, indicam que risco não é um capítulo isolado do plano de projeto. Ele precisa estar presente em todas as fases, do business case ao encerramento.

Fluxo mínimo de gestão de riscos em projetos

Um fluxo enxuto, porém eficaz, pode seguir estes passos:

  1. Iniciação
    No momento do business case, já devem ser identificados os riscos estratégicos do projeto. Por exemplo: dependência de fornecedor único, integração com sistemas legados críticos ou incertezas regulatórias.

  2. Planejamento
    Realizar um workshop de riscos com a equipe de projeto e principais stakeholders. A partir daí, criar um registro de riscos com descrição, causa, consequência, probabilidade, impacto e responsável.

  3. Análise qualitativa e quantitativa
    Classificar riscos em uma matriz de probabilidade x impacto. Para projetos de maior porte, usar técnicas quantitativas, como simulações de Monte Carlo, seguindo referências como as da ITToolkit.

  4. Planejamento de respostas
    Definir estratégias para cada risco relevante: evitar, mitigar, transferir ou aceitar. Ligar explicitamente essas respostas ao cronograma e ao orçamento do projeto.

  5. Monitoramento contínuo
    Em cada reunião de status de projeto, revisar os riscos principais, avaliar mudanças de probabilidade/impacto e atualizar planos de ação.

O segredo é garantir que gestão de riscos esteja incorporada ao ciclo de gestão de projetos, não tratada como documento que só reaparece na auditoria.

Riscos de terceiros, cibersegurança e compliance no centro da estratégia

A dependência de cloud, SaaS, integradores, fintechs e provedores de dados tornou o risco de terceiros um dos mais sensíveis. O relatório da Hyperproof mostra que ainda há forte uso de planilhas para riscos de terceiros, o que aumenta trabalho manual, erros e dificuldades de rastreabilidade.

Uma abordagem mais madura começa com um inventário completo de terceiros, classificando-os por criticidade de negócio, acesso a dados sensíveis e impacto potencial em caso de falha. A partir daí, entram requisitos mínimos de entrada (due diligence), contratos com cláusulas de risco bem definidas e monitoramento periódico.

Ferramentas de GRC e automação ajudam a centralizar avaliações, evidências de controles e relatórios como SOC 1 e SOC 2. O relatório de benchmark de SOC da CBIZ mostra como empresas vêm utilizando métricas específicas de controles complementares para medir a maturidade de fornecedores críticos.

Do lado regulatório, a maturidade da LGPD e o avanço das ações da ANPD aumentam a responsabilidade sobre o tratamento de dados pessoais, inclusive por terceiros. A Grant Thornton Brasil ressalta a necessidade de integrar compliance, privacidade e operação, evitando que a empresa responda por falhas de parceiros mal avaliados.

Na frente de cibersegurança, estudos consolidados por consultorias especializadas em GRC e segurança da informação reforçam a necessidade de integrar controles diretamente nos pipelines de desenvolvimento, em uma abordagem de DevSecOps. Controles de acesso, varreduras automatizadas e testes de segurança passam a fazer parte do ciclo contínuo de entrega, não de uma etapa exclusiva de auditoria.

IA e automação na gestão de riscos: onde gerar eficiência real

Inteligência artificial entrou com força no vocabulário de risco, mas nem toda aplicação gera valor. A pergunta central é onde IA e automação realmente aumentam eficiência, reduzem falsos positivos e melhoram a qualidade dos insights.

O artigo da Oscilar sobre tendências de gestão de riscos em fintechs traz exemplos de plataformas que usam IA para analisar grandes volumes de sinais em tempo real. Resultados reportados incluem reduções significativas no tempo de investigação, diminuição de perdas por fraude e cortes expressivos em falsos positivos.

Aplicações concretas incluem:

  • Modelos de machine learning para detecção de anomalias em transações financeiras e comportamentos de usuários.
  • Motores de decisão que ajustam, em tempo real, limites de crédito ou políticas de onboarding com base em risco dinâmico.
  • Classificação automática de incidentes, priorizando os mais críticos para ação humana.
  • Co-pilotos de IA que auxiliam analistas a investigar casos complexos, consolidando dados espalhados em múltiplos sistemas.

Por outro lado, relatórios sobre tendências de GRC e compliance destacam riscos associados à adoção indiscriminada de IA. Sem governança, esses modelos podem introduzir vieses, gerar decisões pouco explicáveis e criar vulnerabilidades regulatórias.

Uma boa regra prática é só avançar em IA para gestão de riscos quando quatro condições são atendidas: dados minimamente estruturados, critérios claros de sucesso, envolvimento das áreas de risco e compliance e um processo de validação e monitoramento de modelos.

Processo em 7 passos para evoluir a gestão de riscos em 12 meses

Com tantos elementos em jogo, a pergunta natural é por onde começar. Abaixo, um roteiro em sete passos para evoluir a gestão de riscos em um horizonte de 12 meses.

  1. Diagnosticar a maturidade atual
    Usar benchmarks de pesquisas como KPMG, Deloitte e FERMA para comparar sua estrutura atual a pares do mercado. Mapear lacunas em governança, processos, dados e tecnologia.

  2. Definir objetivos de negócio para a gestão de riscos
    Traduzir o discurso genérico de “mitigar riscos” em metas concretas, como reduzir incidentes críticos, diminuir perdas operacionais ou aumentar taxa de sucesso de projetos estratégicos.

  3. Priorizar temas de risco críticos
    Focar, inicialmente, em três frentes que concentram maior exposição: gestão de projetos estratégicos, riscos de terceiros e cibersegurança/compliance. Alinhar essa priorização à estratégia da organização.

  4. Desenhar a governança e os rituais de decisão
    Estruturar um comitê de riscos com composição, agenda e critérios de priorização claros. Definir como as informações de risco alimentam decisões de investimento, priorização de projetos e relacionamento com fornecedores.

  5. Padronizar processos e templates
    Criar modelos únicos de registro de riscos, planos de ação e relatórios executivos. Adaptar boas práticas consolidadas de materiais como os da ITToolkit, evitando multiplicidade de formatos que fragmenta a informação.

  6. Construir o painel de controle de riscos em tempo real
    Integrar dados de gestão de projetos, incidentes, terceiros, auditorias e indicadores de negócio em um único painel. Começar simples, com poucos KRIs bem escolhidos, e evoluir com o tempo.

  7. Desenvolver cultura, competências e incentivos
    Treinar gestores de projeto, donos de processo e áreas de negócio em conceitos básicos de gestão de riscos. Criar incentivos para reporte tempestivo de riscos e incidentes, sem cultura de culpa.

Horizonte de 90, 180 e 365 dias

  • 90 dias: diagnóstico de maturidade, definição de objetivos e temas prioritários, comitê de riscos estruturado e primeiros templates padronizados.
  • 180 dias: painel de controle de riscos mínimo viável em operação, integrando principais fontes de dados. Gestão de riscos implantada nos projetos mais críticos.
  • 365 dias: ampliação de escopo para terceiros e cibersegurança, automação de partes do monitoramento, primeiros casos de uso de analytics avançado ou IA em risco.

Métricas, dados e insights para o comitê de riscos

Chegamos ao cenário central da governança: a reunião mensal do comitê de riscos avaliando o portfólio de projetos estratégicos. É aqui que o painel de controle de riscos em tempo real precisa provar seu valor.

Para que essa reunião seja decisória, e não apenas informativa, o comitê deve receber um pacote enxuto, porém robusto, de métricas e insights. Exemplos de elementos essenciais:

  • Top 10 riscos corporativos, com tendência (melhorando, estável, piorando).
  • Principais riscos associados aos projetos estratégicos, com impacto em prazo, escopo e orçamento.
  • Situação dos riscos de terceiros críticos, incluindo evidências de controles e vencimento de avaliações.
  • Indicadores de cibersegurança e continuidade, como incidentes de alta severidade e tempo de resposta.
  • Planos de ação atrasados e barreiras que impedem sua execução.

Um bom pacote de gestão de riscos combina visão de portfólio e visão de caso. Ou seja, mostra tanto a fotografia agregada quanto exemplos concretos de riscos que exigem decisão do comitê.

É nesse contexto que relatórios de mercado, como as análises de inovação em risk management da StartUs Insights, ajudam a dar perspectiva. Eles mostram onde o mercado está investindo, quais tecnologias surgem com força e como concorrentes podem estar transformando gestão de riscos em vantagem competitiva.

A responsabilidade do comitê é usar esse conjunto de dados, métricas, insights e benchmarks para tomar decisões claras: aprovar investimentos, realocar recursos, reclassificar prioridades ou, em casos extremos, interromper projetos que já não compensam o risco.

Fechando o ciclo com ações práticas em gestão de riscos

Gestão de riscos efetiva não é sinônimo de zero risco. É a capacidade de assumir riscos certos, no momento certo, com consciência das possíveis consequências e planos de resposta claros.

Ao estruturar pilares sólidos de governança, dados, processos e tecnologia, sua organização deixa de tratar riscos como lista de problemas e passa a enxergá-los como parte do jogo estratégico. Ao integrar gestão de riscos à gestão de projetos, à gestão de terceiros e à agenda de compliance, você reduz surpresas desagradáveis e aumenta a taxa de sucesso das iniciativas críticas.

Os próximos passos são objetivos: realizar um diagnóstico honesto de maturidade, escolher poucos temas prioritários, montar um painel de controle de riscos em tempo real e instituir uma reunião mensal de comitê com foco em decisão. A partir daí, dados, métricas e insights passam a trabalhar a favor da estratégia, e não apenas da conformidade.

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Dionatha Rodrigues

Dionatha é bacharel em Sistemas de Informação e especialista em Martech, com mais de 17 anos de experiência na integração de Marketing e Tecnologia para impulsionar negócios, equipes e profissionais a compreenderem e otimizarem as operações de marketing digital e tecnologia. Sua expertise técnica abrange áreas-chave como SEO técnico, Analytics, CRM, Chatbots, CRO (Conversion Rate Optimization) e automação de processos.

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