Imagine duas bancas de feira vendendo o mesmo tomate, do mesmo produtor. A placa da primeira diz “tomate italiano, R$ 9 o quilo”. A da segunda diz “bom para molho, colhido ontem”. Quem passa com pressa entende na hora para que serve o tomate da segunda banca.
Product marketing é o trabalho da segunda placa, feito com método. É a função que liga produto e mercado: além de saber quais recursos o produto tem, ela responde por que o cliente deveria se importar com eles. Em empresa de tecnologia, a ausência dela pode aparecer assim: o time de produto lança um recurso, o marketing recebe a lista de funcionalidades na véspera e publica um “agora disponível” de que ninguém se lembra uma semana depois.
A seguir, você vê o que o papel faz, onde termina o trabalho de produto e como decidir quem no seu time responde por posicionamento, mensagem e lançamento.
Por que o Product Marketing aparece quando o lançamento sai torto
Martina Lauchengco, sócia do Silicon Valley Product Group (SVPG) que começou a carreira na Microsoft, abriu um texto de 2012 com uma cena de lançamento (SVPG, 2012). O marketing prepara o lançamento com um checklist, o comunicado sai com os recursos trocados e sem posicionamento, e o chefe de marketing garante que está tudo em ordem porque o checklist está em dia. Na reunião para revisar o posicionamento, o marketing pergunta ao gerente de produto como ele quer posicionar o produto.
Hoje, o mesmo roteiro seria assim: o produto lança uma integração com o CRM, o blog descreve a tela de configuração, o anúncio promete “mais produtividade” e vendas segue apresentando o produto do jeito antigo.
Se o último lançamento da sua empresa lembra essa cena, leve esta pergunta para a próxima reunião de planejamento: “Quem aqui responde por explicar ao cliente por que este recurso importa, e essa pessoa está nesta sala?”
O que faz o Product Marketing, na lista de quem desenhou o papel
Lauchengco separa o product marketing do marketing institucional porque ele usa os produtos, que ela chama de o maior ativo da maioria das empresas de tecnologia, para guiar a estratégia de mercado e o crescimento. Na lista dela, quem ocupa o papel domina:
- Análise competitiva: o que os concorrentes dizem e como isso molda a percepção do mercado.
- Pesquisa de mercado e de cliente: o que importa dentro e fora da categoria.
- Posicionamento: o que o produto é, por que é diferente e por que alguém deveria se importar.
- Comunicação e campanhas: imprensa, redes, anúncio, e-mail, busca e eventos, sabendo quando usar cada um.
- Apoio a vendas: material, demonstração e o conhecimento de produto que uma boa demonstração exige.
- Parcerias e mensuração: programas com parceiros e resultados ligados às metas do negócio.
Dez anos depois, no prefácio do livro LOVED, de Lauchengco, Marty Cagan descreveu o papel por perguntas (SVPG, 2022): como alcançar o cliente-alvo, como ele descobre que o produto existe, como posicionar o produto, quem decide a compra e como o cliente satisfeito vai recomendá-lo aos colegas.
As duas listas descrevem o papel como ele deveria funcionar, na visão de consultores do SVPG, que vivem de aconselhar empresas sobre esse modelo; Lauchengco também oferece um workshop ligado ao livro. Nenhuma é levantamento de como as empresas organizam o papel de fato. Os textos são de 2012 e 2022, e o próprio Cagan admite, no prefácio, que o SVPG escreveu mais sobre produto do que sobre mercado por causa do que ele chama de viés de produto. Use as listas como mapa de responsabilidades.
Pegue a lista de Lauchengco e escreva, ao lado de cada item, o nome de quem faz aquilo hoje na sua empresa. Os itens sem nome mostram por onde começar.
Onde termina o trabalho de Produto e começa o de Mercado
Cagan abre o prefácio pelo product/market fit, o encaixe entre produto e mercado, e lista por que tantos produtos não vão a lugar nenhum. Eles não resolvem uma necessidade real. Ou não há clientes suficientes com aquela necessidade. Ou poucos clientes descobrem que o produto existe. Ou descobrem e não enxergam como ele atende ao que precisam. As duas primeiras falhas são de produto. As duas últimas são de mercado, e é nelas que entra o product marketing.
Na divisão que ele propõe, o gerente de produto cuida principalmente do produto, e o product marketer, do mercado, inclusive da estratégia de go-to-market. Os dois lados correm em paralelo, e Cagan descreve a parceria como os dois triangulando até chegar ao encaixe.
Lauchengco viu essa divisão funcionar na Microsoft: product management definia o que construir, e product marketing garantia que o mundo soubesse dos produtos “e por que deveria se importar”. A tabela reúne o que Cagan e Lauchengco descrevem. A coluna de marketing institucional e as linhas “Com quem trabalha mais” e “Sinal de que falhou” são síntese do Club Martech, não vêm das fontes:
| Dimensão | Gestão de produto | Product marketing | Marketing institucional |
|---|---|---|---|
| Pergunta central | O que construir e por quê | Por que o cliente deveria se importar | Como a empresa e a marca são percebidas |
| O que decide | Problema, escopo, prioridade do roadmap | Posicionamento, mensagem por público, plano de lançamento | Identidade, tom, presença institucional |
| Com quem trabalha mais | Design e engenharia | Produto, vendas e quem opera os canais | Liderança, comunicação e agências |
| Sinal de que falhou | Ninguém usa o recurso | Ninguém entende para que serve o recurso | Ninguém lembra da empresa |
Lauchengco também recomenda colocar product marketers nas discussões de planejamento do produto. Segundo ela, a partir da experiência com as empresas que atende, sem medição por trás, quando o planejamento passa por essa lente, o que entra e quando entra costuma mudar. Vale como hipótese para testar no seu próximo ciclo.
O verbete sobre estratégia de produto e o artigo sobre estratégias de product management cobrem o lado do produto. Do lado do mercado, leve à próxima revisão de roadmap: “Quando a gente prioriza o que construir, quem traz o que o mercado e a concorrência estão dizendo?”

Posicionamento e Mensagem: a parte que exige mais do que copy
Para Lauchengco, o “por que se importar” pede mais habilidade de produto e de comunicação do que a maioria imagina: entender o cliente a fundo, conhecer o setor e o negócio e, acima de tudo, entender o porquê do produto. Saber a lista de recursos não basta.
Num texto de 2011 sobre mensagem (SVPG, 2011), ela parte de uma premissa útil para quem decide canal: sem um orçamento de marketing enorme, o primeiro contato da pessoa com o produto acontece fora do controle da empresa, numa conversa, numa avaliação, no post de alguém. A mensagem precisa ser concreta e curta o bastante para outra pessoa repetir. Ela aponta erros fáceis de reconhecer:
- Dizer o que o time quer dizer. A novidade empolga quem construiu; o cliente quer saber se aquilo resolve o problema dele.
- Escrever toda mensagem para a aquisição. Ativação, retenção, indicação e receita pedem comportamentos diferentes e mensagens próprias.
- Usar a mesma mensagem para todo público. Quem adota cedo precisa ouvir coisas diferentes de quem chega depois. Consistência fica para a marca e o posicionamento.
Entre os princípios que ela propõe estão clareza antes de abrangência, evidência antes de alegação e testar tudo. O verbete sobre testes A/B explica a mecânica do último. O artigo sobre Jobs to be Done na prática mostra como mapear a motivação real de compra, a matéria-prima do porquê.
O texto é de 2011, e os exemplos são sites da época. Os testes citados ali são casos de um site só, e a própria autora avisa que não existe fórmula. Leia como princípio de trabalho, sem tomar os resultados como referência para o seu caso.
Para quem decide canal e verba, antes de escolher onde anunciar, pergunte à agência: “Esta mensagem foi escrita para qual etapa do cliente: conhecer, ativar, continuar ou indicar?”
Lançamento: checklist em dia não garante mercado convencido
O checklist da cena de Lauchengco sozinho não responde se o mercado entendeu o produto, só se as peças saíram: data, comunicado, post e e-mail. O verbete sobre lançamento de produto descreve o evento, e o artigo sobre go-to-market strategy trata de crescer com eficiência e foco em receita, estratégia em que o lançamento é um momento entre vários.
Antes da data, o product marketing chega com decisões tomadas: público prioritário, frase de posicionamento, prova para cada promessa e vendas preparada. Suponha um lançamento em que tudo sai no prazo e, um mês depois, o recurso tem pouco uso. Sem uma hipótese escrita antes, não dá para saber se falhou o público, a mensagem ou o recurso. Antes de aprovar o próximo plano, pergunte: “Qual frase sobre o cliente precisa ser verdade para este lançamento funcionar, e como a gente vai saber em 30 dias se ela era?”
Quando o Product Marketing vira um papel próprio
Para Lauchengco, numa startup com um produto só, marketing e product marketing costumam ser a mesma coisa; a disciplina separada se justifica com várias linhas de produto ou produto muito técnico. Cagan completa: no começo de uma startup, o gerente de produto pode ter de cobrir o papel; em outros casos, alguém do marketing cobre.
Na pesquisa da PMA, o papel aparece pequeno e conectado: no relatório State of Product Marketing 2025, da Product Marketing Alliance, 44,3% das equipes de product marketing têm uma ou duas pessoas, 88,8% dos profissionais trabalham próximos de produto e 81%, de marketing (Product Marketing Alliance, maio de 2025).
A pesquisa é publicada por uma associação da própria categoria, e pode ter interesse em mostrar a função valorizada. A página pública diz só que ouviu “centenas” de product marketers, sem informar amostra, países ou método, e não define o que é “trabalhar próximo”. Os números acima saem dessa página de destaques. A edição de 2026 já saiu, com os dados atrás de cadastro.
Os sinais abaixo são um critério do Club Martech a partir das condições de Lauchengco (várias linhas de produto, produto complexo), sem pesquisa por trás:
- A empresa tem mais de uma linha de produto, e as mensagens começam a competir entre si.
- Cada texto de lançamento volta da revisão de produto quase reescrito.
- Vendas pede explicação e demonstração a cada recurso novo.
- Cada canal descreve o produto de um jeito diferente.
Enquanto os sinais não aparecem, o papel pode esperar, mas a responsabilidade precisa de dono com nome: o gerente de produto, alguém do marketing ou quem lidera a empresa. Quanto mais sinais aparecem juntos, mais forte o caso para uma pessoa dedicada. Pergunte à liderança: “Quem assina o posicionamento deste produto, e onde ele está escrito?”

O limite: o que o Product Marketing não conserta
Cagan reconhece que há produtos que deram certo apesar de um product marketing fraco, mas, nas palavras dele, um ótimo product marketing “não consegue superar um produto ruim”. Se o problema está nas duas primeiras falhas, mensagem melhor não muda o resultado.
Contratar alguém também não resolve sozinho. Lauchengco observa que, mesmo onde já existem product marketers, a fronteira com produto varia, e recomenda que as duas funções conversem com frequência. A hipótese do Club Martech: sem lugar no planejamento, o product marketer vira, na prática, quem recebe a lista de recursos e escreve o texto de lançamento.
O mesmo limite vale para canal. O artigo sobre growth marketing trata de estratégias e métricas para escalar. Antes de aumentar a verba de um canal que leva uma mensagem sem o porquê, pergunte: “O problema deste funil está em quem a gente alcança, no que a gente diz ou no que o produto entrega?”
Próximos passos para organizar o Product Marketing no seu time
Dá para começar sem contratar ninguém:
- Faça o inventário. Use a lista de Lauchengco e escreva um nome ao lado de cada responsabilidade.
- Escreva o posicionamento do produto principal. Diga o que ele é, por que é diferente e por que o cliente deveria se importar. Peça a alguém de vendas e a alguém de produto que escrevam a própria versão, sem ver a sua, e compare.
- Revise uma mensagem por etapa. Na campanha com mais verba hoje, confira para qual etapa do cliente ela foi escrita antes de mexer no orçamento.
- Leve o mercado para o roadmap. Coloque o dono do posicionamento na próxima reunião de priorização, com a análise de concorrência e o que vendas ouviu dos clientes no último mês.
Comece pelo inventário: numa reunião de meia hora você descobre quem responde hoje por posicionamento, mensagem e lançamento na sua empresa.