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Jornada de busca: o que muda em SEO, mídia e medição

A jornada de busca saiu do Google e passa por redes, assistentes de IA e marketplaces. Veja o que o I/O 2026, um estudo com líderes brasileiros e a discussão sobre performance mostram, e onde cada fonte é fraca.

A jornada de busca é o caminho que uma pessoa percorre entre perceber um problema e escolher quem vai resolvê-lo, passando por todos os lugares onde ela procura informação no meio do caminho. Durante muito tempo, esse caminho tinha um ponto de partida previsível: uma caixa de busca, algumas palavras-chave e uma lista de links. Hoje ele pode começar num vídeo curto ou numa conversa com um assistente de IA, passar por um marketplace e terminar numa mensagem de WhatsApp.

Pense numa cidade em que todo mundo entrava pela mesma estação de trem. Bastava ter uma loja bem sinalizada na saída da estação. Agora a cidade ganhou aeroporto, rodoviária, ciclovia e aplicativo de transporte. A loja da estação continua recebendo gente, mas quem chega por outro lugar nunca passa por ela. A pergunta deixa de ser “estou bem posicionado na estação?” e vira “por quais entradas meu cliente chega, e o que ele encontra em cada uma?”.

Este artigo junta três leituras recentes sobre essa mudança: o anúncio do Google no I/O 2026, uma pesquisa qualitativa com líderes de marketing e e-commerce brasileiros e uma coluna sobre o que acontece com performance quando a busca vira conversa. A ideia é separar o que cada fonte mostra de fato, onde ela é fraca e o que você pode decidir com isso na sua operação.

Por que a jornada de busca deixou de caber no relatório de SEO

O sintoma aparece antes da explicação. O tráfego orgânico de uma categoria cai, as posições continuam parecidas e as vendas não acompanham a queda na mesma proporção. Ou o contrário: o time comercial ouve clientes dizendo “vi vocês num vídeo” ou “o ChatGPT me indicou”, e nenhum desses caminhos aparece no painel de aquisição.

Os dois casos têm a mesma raiz. A jornada de busca se espalhou por ambientes que o relatório tradicional não enxerga. O SEO continua medindo bem o que acontece na página de resultados do Google, mas a decisão do cliente passou a ser montada em vários lugares, muitas vezes sem um clique que deixe rastro.

O Google continua importante, mas virou uma das entradas, e a própria entrada do Google mudou de forma. Quem trata a jornada de busca como sinônimo de ranking orgânico acompanha só uma delas.

A pergunta para levar à próxima reunião é simples: “Em quais lugares o nosso cliente pesquisa antes de comprar, e quantos deles a gente acompanha hoje?”

Gráfico de barras: presença das marcas entrevistadas por ambiente. Google 90%, Instagram 85%, TikTok 65%, YouTube 50%, marketplaces 40%, Facebook 35%, WhatsApp 30% e assistentes de IA 20%. Fonte: estudo A Nova Era da Busca, NP Digital.
Presença das marcas entrevistadas por ambiente. Fonte: estudo A Nova Era da Busca, NP Digital (VTEX Day 2025, p. 17); múltipla escolha, n não informado.

O que o Google anunciou e o que ainda é promessa

No post do I/O 2026, publicado em 19 de maio de 2026 por Elizabeth Reid, vice-presidente de Busca, o Google informa que o AI Mode passou de 1 bilhão de usuários mensais e que o volume de consultas mais que dobrou a cada trimestre desde o lançamento. São números do próprio Google, sem auditoria externa.

O mesmo post mistura recursos que já funcionam com recursos anunciados para depois. Para planejar, vale separar as duas pilhas.

RecursoSituação informada pelo Google em 19/05/2026Alcance
Gemini 3.5 Flash como modelo padrão do AI ModeDisponível a partir do anúncio; em agosto, o Gemini 3.7 Flash chegou ao AI Mode para assinantesGlobal
Pergunta de continuação a partir do AI Overview, levando ao AI ModeDisponível a partir do anúncioDesktop e celular, global
Nova caixa de busca com entrada por texto, imagem, arquivo, vídeo e abas do ChromeEm implantação gradualPaíses e idiomas onde o AI Mode existe
Agentes de informação que monitoram a web em segundo planoAnunciado para o meio do anoPrimeiro para assinantes Google AI Pro e Ultra
Reservas e ligações feitas pela IA para empresas locaisAnunciado para o meio do anoEstados Unidos
Mini apps e acompanhamentos personalizados dentro da BuscaAnunciado para os meses seguintesAssinantes AI Pro e Ultra nos Estados Unidos

Todos os números e prazos da tabela vêm do anúncio do próprio Google, que é parte interessada. O post não traz nenhum dado sobre cliques enviados a sites, tráfego para sites de conteúdo ou efeito sobre anúncios. Os prazos de agentes e mini apps eram previsões de maio: confira no seu mercado se os recursos já chegaram antes de planejar.

O ponto mais concreto para a operação é a continuação a partir do AI Overview. A pessoa lê o resumo, faz uma segunda pergunta e entra numa conversa. A partir daí, a página do seu site pode servir de fonte para várias respostas seguidas sem receber uma visita. É por isso que acompanhar impressões em recursos de IA, como o relatório do Search Console para AI Overviews e AI Mode, passou a fazer parte da rotina.

A conversa também acontece fora do Google. Em entrevista à newsletter Big Technology, publicada em 3 de novembro de 2026, Adam Fry, líder de produto de consumo do ChatGPT, disse que o volume de consultas “do tipo busca” no ChatGPT equivale a cerca de um quinto do volume de consultas do Google. A OpenAI não divulgou como faz essa contagem, então o número não equivale a participação de mercado, a tráfego enviado a sites nem a usuários únicos.

O que líderes brasileiros dizem sobre a jornada de busca

O estudo “A Nova Era da Busca”, da agência NP Digital, entrevistou líderes de marketing e e-commerce durante o VTEX Day 2025. Segundo o estudo, os setores representados foram moda e lifestyle, serviços B2B, automotivo, marketplaces e tecnologia, varejo e e-commerce, saúde e bem-estar. Cada entrevista durou em média 25 minutos.

Os achados mais úteis para quem planeja canais:

  • 95% dos entrevistados disseram que a jornada do consumidor não é mais linear na operação deles.
  • 45% relataram que TikTok, Instagram, Pinterest ou lives viraram ponto de partida da descoberta, muitas vezes antes do Google.
  • 40% notaram crescimento de buscas por situação de uso, como “tênis que combina com calça marrom”, em vez de nome de produto.
  • 40% mencionaram assistentes como ChatGPT ou Gemini mudando o comportamento de busca do cliente ou integrados à experiência da marca.
  • Só 5% disseram que o público ainda prioriza a busca clássica no Google com palavra-chave direta.

Na presença das marcas, Google aparece em 90% das respostas, Instagram em 85%, TikTok em 65% e YouTube em 50%. Assistentes de IA aparecem em 20%. A pergunta permitia mais de uma resposta, por isso a soma passa de 100%. Ferramenta de palavra-chave enxerga só a primeira dessas entradas.

O estudo não informa quantas pessoas foram ouvidas. Todos os percentuais são múltiplos de 5, o que é compatível com algo perto de 20 entrevistas, mas isso é inferência nossa, não dado publicado. A amostra é de um evento de e-commerce, escolhida por conveniência, e mede a percepção de executivos, não o comportamento de consumidores. A coleta é de 2025. E quem publica é uma agência que vende o serviço recomendado nas conclusões.

Há também números que mudam de uma página para outra. A distribuição por estágio (p. 28) mostra 30% de empresas “já preparadas”; a análise da p. 29 fala em “10% já preparados”. A tabela de resumo (p. 34) afirma que “40% dos consumidores usam IA”, quando o dado coletado era que 40% dos executivos mencionaram a IA. Se você for citar o estudo, cite o achado original, não a síntese.

Da palavra-chave ao problema: o que muda na intenção

A coluna de Luiz Fernando Ruocco, managing director da Monks no Brasil, publicada no Meio & Mensagem em agosto de 2026, descreve bem a virada de formulação. A busca antigamente partia de uma solução já escolhida, como “tinta de parede”. Na conversa com uma IA, ela parte do problema: “como deixar minha sala mais iluminada e ampla?”. A resposta puxa novas perguntas sobre tamanho da sala e orçamento. O autor resume a mudança como sair das palavras-chave para “o textão”.

A coluna é opinião de um executivo de agência que vende mídia e mensuração, sem dados próprios publicados. Vale como hipótese de trabalho, não como medição.

Essa leitura conversa com os 40% do estudo da NP Digital que notaram buscas por situação de uso. E aparece de novo nas barreiras de mapeamento: a mais citada pelos entrevistados (30%) foi o desalinhamento entre a intenção de busca e as categorias disponíveis no site. O cliente pergunta por um contexto; a loja responde com uma árvore de categorias organizada pelo catálogo.

Na prática, a intenção de busca ficou mais longa e mais situacional. Isso afeta arquitetura de informação, nomes de categoria, filtros, fichas de produto e o conteúdo de apoio. Uma página que só descreve o produto responde à busca antiga. Uma página que explica para que situação o produto serve, para quem não serve e como comparar responde à nova.

Comparação: a busca pela solução usa palavra-chave curta, como tinta de parede; a busca pelo problema descreve a situação, como deixar a sala mais iluminada e ampla, e puxa novas perguntas.
A mesma necessidade formulada como solução e como problema. Exemplo da coluna de Luiz Fernando Ruocco (Monks) no Meio & Mensagem.

A pergunta a fazer ao time de conteúdo e produto: “Se o cliente descrever o problema em vez de nomear o produto, qual página nossa responde a essa pergunta?”

SEO, mídia e conteúdo como um sistema só

As duas fontes sobre o mercado chegam ao mesmo ponto por caminhos diferentes: canal isolado perde força quando a jornada de busca atravessa vários ambientes. Na pergunta sobre o alinhamento entre presença digital e estratégia, o estudo da NP Digital aponta a fragmentação de canais como o obstáculo mais citado (20%) e a comunicação integrada como o fator de sucesso mais citado (35%). A coluna da Monks diz que a mudança não reduz o peso de anúncios, mas exige coordenar mídia paga e presença nas respostas de IA no mesmo plano.

Para quem opera, isso tem três consequências concretas.

  1. Os mesmos fatos em todo lugar. Preço, condição, prazo e especificação precisam ser iguais no site, no marketplace, no perfil social e no material que terceiros publicam. Um assistente que lê fontes diferentes repete a divergência.
  2. Dado de busca alimenta mídia, e o contrário também. Termos de pesquisa interna do site, perguntas do atendimento e consultas que geram impressão em recursos de IA indicam temas de campanha. Termos que convertem na mídia paga indicam conteúdo que falta.
  3. Formato por ambiente, mensagem única. Vídeo curto para descoberta social, página detalhada para comparação, ficha completa para marketplace. O que muda é o formato; a promessa e os fatos não.

Essa integração é o que o guia de GEO chama de base comum: conteúdo útil, fato verificável, autoria clara. Sem ela, otimizar para cada canal vira uma lista de tarefas desconectadas.

Como medir a jornada de busca quando o clique some

Ruocco escreve que a mensuração dessa virada “ainda não existe” e “terá de ser inventada”. É uma frase de efeito, mas aponta um problema real: o funil de último clique não registra a resposta de IA que apresentou sua marca nem o vídeo que despertou a busca. O autor sugere medir da descoberta do problema até a compra e a fidelização, e cita o marketing mix modeling como método que ganha relevância e precisa se adaptar.

Você não precisa esperar a métrica perfeita. Dá para separar camadas que já são observáveis:

CamadaO que observarOnde encontrarO que ela não prova
PresençaMenção e citação da marca em respostas de IA e resultados sociaisPainel fixo de perguntas, Search ConsoleQue houve visita ou venda
AcessoSessões com origem identificada em assistentes, redes e buscaWeb analyticsToda a influência sem clique
DeclaraçãoOnde o cliente diz que conheceu a marcaPergunta aberta no formulário e no CRMPrecisão, porque depende da memória
EfeitoContribuição de cada canal no resultado ao longo do tempoTestes de incrementalidade, MMMDetalhe por peça ou por consulta

O roteiro para montar as duas primeiras camadas está em como medir a presença da sua marca na busca por IA. A última depende de método, e o artigo sobre incrementalidade mostra como escolher a evidência certa para cada decisão de orçamento.

O limite da jornada de busca: nem toda marca precisa estar em todo lugar

Existe uma leitura apressada dessas fontes: se a busca está em todo canal, a marca precisa estar em todos. O estudo da NP Digital aponta na direção contrária: o fator de sucesso mais citado foi a comunicação integrada (35%), e não a presença em muitos canais. Estar em oito ambientes com fatos desencontrados é pior do que estar em três com tudo alinhado.

O critério é olhar onde o seu cliente pesquisa. Os percentuais de um estudo com executivos de e-commerce dizem pouco sobre um software B2B ou um serviço local. Use as fontes como hipótese e valide com os seus clientes. É a diferença entre operar o sistema e seguir a tendência da vez.

Próximos passos para mapear a jornada de busca da sua marca

Comece com uma categoria de produto ou serviço e faça quatro coisas nas próximas duas semanas:

  1. Pergunte aos últimos 20 clientes onde pesquisaram antes de comprar, com resposta aberta. Anote cada ambiente citado.
  2. Escreva 10 perguntas como o cliente descreve o problema, sem o nome do produto, e rode no Google com AI Overview, no ChatGPT e no Gemini. Registre se a marca aparece, que página é citada e se a informação está correta.
  3. Confira os fatos principais (preço, condição, especificação) no site, no marketplace e nos perfis sociais. Toda divergência vira tarefa com responsável.
  4. Leve o resultado para a reunião de mídia e conteúdo juntos, com uma pergunta: “Qual entrada da jornada de busca a gente está ignorando e qual está cuidando sem necessidade?”

Esse levantamento não substitui método estatístico. Ele troca a suposição pelo que os seus clientes dizem sobre a própria jornada de busca.

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Dionatha Rodrigues

Construí minha trajetória em Martech conectando marketing e tecnologia por meio de dados, automações e IA.

Minha experiência reúne liderança de equipes e projetos no Brasil, México, Espanha e Suíça, aproximando estratégia e operação para melhorar processos e apoiar o crescimento dos negócios.

Fundei a Começando na Web e o Club Martech. Entre projetos para clientes nacionais e internacionais, transformo essa experiência em formação e ferramentas que ajudam profissionais a conectar suas decisões ao que acontece na operação e colocar estratégia em prática.

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